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Pussy Riot apresenta novas músicas no South by Southwest com discurso e playback: '''Estamos aqui para mostrar arte'''

Banda da Rússia mostrou no festival dos EUA nova fase, na qual deixa de ser punk para tocar um pós-techno com pitadas de música russa.

 
 -  Pussy Riot toca no festival South By Southwest  Foto: Fabrício Vitorino/Globo.com
Pussy Riot toca no festival South By Southwest Foto: Fabrício Vitorino/Globo.com

O Pussy Riot era uma das atrações mais esperadas do South by Southwest, festival de tecnologia e cultura que acontece em Austin, nos Estados Unidos. Primeiro, pela óbvia razão de ser um grupo ativista russo se apresentando no coração dos EUA em meio a uma guerra de ciberinformação.

Segundo pela recente “mudança” estética da banda, que deixou de ser punk para tocar um pós-techno com pitadas de música russa. Terceiro por ter apenas Nadiéjda Tolokónnikova no palco, já que Maria Alióhina e Iekaterína “Katia” Samusévitch deixaram o grupo meses atrás.

Antes do show, no The Main, um dos clássicos clubes da Sixth Street, a rua mais famosa de Austin, o Pussy Riot foi assunto de discussão acadêmica na Universidade do Texas em Austin.

Documentário sobre a banda

“Act & Punishment”, o documentário oficial sobre a história do grupo, foi exibido para uma restrita plateia, com a presença do diretor Evgenii Mittá. O título é uma referência óbvia ao “Crime e Castigo” de Dostoiévski, mas focando na razão de ser do Pussy Riot: o ativismo.

“Nadia, Masha e Katya chegaram em um nível de arte em que conseguem desconstruir e reconstruir a realidade de forma impressionante. Conseguem ser feministas, mas ao mesmo tempo ironizar o feminismo”, disse o cineasta ao G1.

“Foi muito triste ver que, no julgamento, todos achavam que os EUA estavam por trás do Pussy Riot. O departamento de estado, a CIA, o FBI, a NSA... Mas, na verdade, eram três mulheres que estavam sozinhas. Mas a derrota do Pussy Riot no julgamento foi a vitória da arte como ferramenta de mudança. Elas sofreram uma derrota, mas começaram a mudar a Rússia”, diz o diretor.

Pussy Riot apresenta novas músicas no South by Southwest

Pussy Riot apresenta novas músicas no South by Southwest

Durante quase duas horas, é possível ver como o grupo se formou, a partir do encontro juvenil das mentes questionadoras de Masha, Kátia e Nádia (em russo, as formas carinhosas de se chamar Maria, Iekaterína e Nadiéjda).

Pouco tempo depois, juntando as peças do quebra-cabeça intelectual, o desenvolvimento artístico do trio leva a um profundo questionamento da sociedade, que culmina no surgimento do maior “inimigo” do grupo: o presidente da Rússia Vladimir Putin.

Daí em diante, o documentário foca nas injustiças praticadas durante o julgamento das moças após a fatídica apresentação na Catedral Cristo Salvador, em Moscou, e nas alianças artísticas feitas pelo grupo mesmo durante o tempo em que passaram encarceradas após tocarem a “Oração contra Putin” no púlpito do maior templo religioso da Rússia.

Música é o que menos importa

Voltando ao South by Southwest, a multidão que tentava entrar no The Main provavelmente nunca havia ouvido uma música do Pussy Riot. “São as meninas russas que protestam contra Putin e usam balaclavas”, disse uma das presentes, com os cabelos coloridos e uma camisa onde se lia “Punk Rock Girl”.

Mais do que “punk em balaclavas”, o que sobrou do Pussy Riot estava prestes a fazer a mais importante apresentação de sua turnê por pelo menos uma dezena de cidades nos EUA. O South by Southwest é o festival que tenta ditar o rumo das indústrias da música, cinema e tecnologia ao longo do ano.

Pussy Riot toca no South Southwest (Foto: Fabrício Vitorino/Globo.com) Pussy Riot toca no South Southwest (Foto: Fabrício Vitorino/Globo.com)

Pussy Riot toca no South Southwest (Foto: Fabrício Vitorino/Globo.com)

Quando dois sujeitos com balaclavas sobem ao palco, a plateia vem abaixo. “Eu peguei esse microfone para acordar todos vocês”, ela diz. A essa altura, não havia espaço vazio no clube, e nem era mais possível andar. A bandeira “Pussy is the new dick” é colocada sobre o painel do South by Southwest.

Logo, Nádia sobe ao palco, usando balaclava, casaco esportivo e calça branca, com uma meia verde e uma camisa com os dizeres “hardcore”.

“Nós estamos cobrindo o painel de patrocinadores com nossa bandeira. Afinal, o que é mais importante para vocês: a arte ou o dinheiro?”, pergunta Nádia, com sua voz frágil. A plateia, claro, não hesita: “A arte”.

É a deixa para Chelsea Manning, a transexual norte-americana passou anos na prisão após divulgar documentos confidenciais ao WikiLeaks, subir ao palco e lembrar dos presos políticos vítimas de julgamentos tendenciosos ao redor do mundo. “Precisamos lembrar de todos eles. Toda solidariedade aos presos políticos em todos os lugares”.

Assim começa o show do Pussy Riot. Com uma mistura difícil de digerir de batidas Techno, com toques de trance, levadas étnicas russas e samples de bandas de punk rock. As letras são misturas nonsense de palavras em russo e em inglês – idioma que Nádia já domina com absoluta precisão, após ter fixado residência em Nova York.

“Mãos ao alto, mãos para baixo, calcinha para cima, calcinha para baixo”, ou como na na provocativa “Make America Great Again” (Faça a América grande outra vez, slogan usado pelo atual presidente Donald Trump): “Deixe outras pessoas entrar / Ouça suas mulheres / Pare de matar crianças negras / Faça a América grande outra vez”.

Sua música mais nova, “Bad Apples”, em parceria com Dave Sitek, da banda TV on the Radio, traz os duros versos “malditos idiotas / bêbados com poder / ladrões sujos, covardes pequenos / vocês não agiriam assim diante de seus filhos”. Mas é em “Straight Outta Vagina” (saído direto da vagina) que Nádia e o Pussy Riot dão seu recado atual: “Minha vagina é durona e perigosa / abalando poderosos rótulos / a vagina vai dominar o palco / pois a vagina tem muito a dizer”.

Muito playback e muito discurso

Nádia surpreende no palco não pela sua potência vocal (na verdade o show é praticamente todo com playback), nem pela sua habilidade de dançar. Sua voz frágil é inspiradora, e sua força vem da completa ausência de amarras à arte.

“Nós não viemos aqui para entreter vocês. Estamos aqui para mostrar arte. Nós vamos fazer o que nós quisermos, e é isso que vocês deveriam fazer também”, diz.

Se a russa esbarra na falta de carisma no palco – mesmo a tentativa de convidar o público a bater palmas junto dá errado –, ela sobra em virulência, raiva e em absoluto desapego. Se a dança desajeitada que o time de pessoas de balaclava pode provocar alguns risos, ela nos faz pensar na total liberdade que ela tem no palco.

O clímax do show acontece quando uma voz imitando a de Donald Trump anuncia a renúncia do presidente dos EUA e, em seguida, que o presidente da Rússia Vladimir Putin fugiu do país após massivos protestos. Tudo utópico, claro. Mas é a hora da plateia se manifestar com gritos de apoio.

Após o show, Nádia caminha tranquilamente entre a plateia. Mesmo com pulos e gritos, a russa parece não ter atingido os corações dos “inimigos” norte-americanos e seus visitantes. Antes das entrevistas, ela levanta suavemente a balaclava branca, retoca a maquiagem, se olha no espelho e aprova: os olhos estão preparados para as câmeras.

Integrante do Pussy Rito em Austin, no Texas (Foto: Fabrício Vitorino/Globo.com) Integrante do Pussy Rito em Austin, no Texas (Foto: Fabrício Vitorino/Globo.com)

Integrante do Pussy Rito em Austin, no Texas (Foto: Fabrício Vitorino/Globo.com)

Uma pussy riot no meio de todos

E, quando a luz desliga, ela sai pela sixth street ao lado de sua empresária, anônima. Novamente, levanta a balaclava, confere as fotos no Instagram e sorry ao ver alguns comentários. Mas não importa, pois a menina franzina, com cerca de 1,65cm, voz fraca e que anda desengonçada pelas ruas de Austin, é a mesma gigante que desafiou Putin, foi exibida em uma jaula durante um julgamento e passou anos presa na Sibéria longe da filha Gera, hoje com 10 anos.

Sobre o show, depois de algumas músicas, o Pussy Riot começa a entediar, é verdade. A força de Nádia não é suficiente para segurar uma plateia formada por pessoas atrás da próxima banda da moda, do próximo hype e de donos de iPhones fazendo lives e stories.

Mesmo quando praticamente dois terços do público presente já foi pegar um drink, Tolokónnikova continua ali, gritando, dançando desajeitada e agora desfraldando a bandeira que cobria os patrocinadores do festival mais “hype” do mundo.

A música é apenas um detalhe numa poderosa colcha de arte e política. Ainda que Austin não tenha entendido direito, “Pussy is the new dick” é a mensagem de Nádia. E isso é muito poderoso.

 

 

 

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