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Festa dos caboclos celebra renovação de energias com a troca de bandeira em Santarém

O Candomblé que ainda é desconhecido por muitas pessoas em Santarém carrega uma história de superação para seguidores.

 
 -  Divindades do Candomblé são cultuadas com alegria em Santarém, no Pará  Foto: Jéssica Luz/G1
Divindades do Candomblé são cultuadas com alegria em Santarém, no Pará Foto: Jéssica Luz/G1

É época de renovação, agradecer pelo que passou, pelo que foi conquistado e pedir novos resultados para os seguidores de religiões com matrizes africanas em Santarém, oeste do Pará. Domingo (09), ocorreu a Festa dos Caboclos, na casa denominada Kwe Otó Sindoya, para cultuar e fazer a troca da bandeira do tempo, em busca de coisas novas.

Apesar da luta pela resistência das religiões, os seguidores cultuam as divindades com alegria e amor ao próximo. A Festa dos Caboclos é um dos momentos de alegria onde se reúnem os seguidores das religiões de matriz africana e pessoas que têm afinidade com o fundamento. “É um fundamento feito anualmente para trazer novos tempos, novos amigos, novos resultados, em todos os aspectos de nossa vida, da comunidade”, explicou a mãe pequena da Kwe Otó Sindoya, Izonara Souza (Hunsó).

Mãe pequena da Kwe Otó Sindoya, Izonara Souza (Hunsó), durante a Festa dos Caboclos (Foto: Marcos Wesley/STC) Mãe pequena da Kwe Otó Sindoya, Izonara Souza (Hunsó), durante a Festa dos Caboclos (Foto: Marcos Wesley/STC)

Mãe pequena da Kwe Otó Sindoya, Izonara Souza (Hunsó), durante a Festa dos Caboclos (Foto: Marcos Wesley/STC)

A mãe de santo da casa, Maria Ozinelia Santos (Sindoya) contou que a preparação para o momento é cansativa, mas vale a pena. “É uma energia diferente. A gente faz uma vez por ano essa renovação de energia, dos boiadeiros, vaqueiros, juremeiros e marinheiros. É cansativo, mas é gratificante”.

De acordo com a mãe Sindoya, a renovação é necessária para que coisas boas aconteçam. O agradecimento é primordial. “Agradecemos o pai tempo por ser bom, e Ossain, que é dona das folhas, por emprestar as folhas para a gente fazer banho, para forrar a cama, para forrar os orixás”, comentou.

O culto durou o dia inteiro. Inicialmente foi feita uma cerimônia interna, para iniciar o momento sagrado, com a troca da bandeira. “Na bandeira é colocada o nome de toda a comunidade, pedindo para que o tempo traga vida, saúde, paz, prosperidade para todos que estão presentes”, disse Hunsó (mãe).

É oferecida a comida ao Inquice Kitembo, responsável pelas mudanças do tempo, para que ele possa ouvir as rezas e trazer resultados. Para os convidados, foi servida uma feijoada e, durante o restante do dia, teve o samba dos caboclos, que foi aberto ao público.

Os participantes também comeram um pedaço de abóbora cozida para eliminar as impurezas do corpo. Fizeram parte do momento muitos cantos, danças e rezas da angola (igorucis), feitas no idioma Yorubá, originado da África Ocidental, que é usado em ritos religiosos afro-brasileiros.

A mãe de santo da casa, Maria Ozinelia Santos (Sindoya), serviu abóbora cozida para os participantes da Festa do Caboclo como forma de limpar as impurezas do corpo (Foto: Jéssica Luz/G1) A mãe de santo da casa, Maria Ozinelia Santos (Sindoya), serviu abóbora cozida para os participantes da Festa do Caboclo como forma de limpar as impurezas do corpo (Foto: Jéssica Luz/G1)

A mãe de santo da casa, Maria Ozinelia Santos (Sindoya), serviu abóbora cozida para os participantes da Festa do Caboclo como forma de limpar as impurezas do corpo (Foto: Jéssica Luz/G1)

Pessoas de diversas casas prestigiaram a festa. Aucimar Martins (Obátundelê), que é Akopatogun da casa Ilê Axé Igbona Igideui, disse que é uma satisfação participar deste tipo de festa na casa de Sindoya, onde sempre é recebido bem, e que a emoção é inevitável.

“Quando nos prestamos a vim na casa de santo e louvar, principalmente Kitembo, que louvamos na cabeça de nosso pai de santo, é um momento ímpar. Emociona até a mim que não tenho o dom de passar em transe, mas acabo sentindo a energia que ele deixa aqui no momento”, contou.

Na festa, também estavam presentes pessoas que não fazem parte do Candomblé ou de outra religião afro, mas que afirmam se sentir bem no local e tem afinidade com a religião e com as pessoas da casa. A estudante de Antropologia, Sarah Maia, já havia participado de outras festas, mas disse que queria conhecer o samba do caboclo.

“Na primeira vez que eu participei, eu me senti muito à vontade, então isso me fez retornar de novo. Eu gosto muito de ouvir atabaque, gosto das músicas, da alegria quando estão cantando, dançando, e eu me sinto parte disso daqui. Me sinto bem”, ressaltou.

Festa dos caboclos

A cerimônia tem raízes na época em que os africanos do território de Angola chegaram ao Brasil e reconheceram os índios como donos da terra, trazendo, então, o culto de angola caboclo, adaptando à cultura indígena.

“Ocorre a miscigenação cultural, que é a mistura do africano com o brasileiro. Nossos índios vão se manifestar, dentro do culto africano, porque nós cantamos para os Inquices, as divindades, que vem dentro da nação angola”, explicou o Pejigan Paulo Araújo.

De acordo com Paulo Araújo, a maioria das casas do Brasil cultuam a angola caboclo, apesar de suas especificidades. Ele disse que a casa Otó Sindoya trouxe o culto há nove anos e que geralmente a festa é promovida dia 7 de setembro, alusiva ao Dia da Independência, mas este ano, ficou para o dia 10, devido o 7 de setembro ter sido em uma sexta-feira, dia é sagrado para os seguidores do Candomblé. Pessoas que estavam incorporadas pelos caboclos vestiam verde e amarelo, para simbolizar o salvamento da terra.

São feitos cantos para os Inquices, as divindades da nação Angola. Os caboclos incorporam e animam a festa. Paulo comenta que foi do samba do caboclo que surgiram outros tipos de samba, como o samba de roda, e que é resgatado nos carnavais.

Samba dos Caboclos reuniu seguidores das religiões de matriz africana e pessoas que têm afinidade com o fundamento (Foto: Jéssica Luz/G1) Samba dos Caboclos reuniu seguidores das religiões de matriz africana e pessoas que têm afinidade com o fundamento (Foto: Jéssica Luz/G1)

Samba dos Caboclos reuniu seguidores das religiões de matriz africana e pessoas que têm afinidade com o fundamento (Foto: Jéssica Luz/G1)

Candomblé de Kwe Otó Sindoya

O Candomblé cultuado pela casa da mãe Sindoya tem ramificação da nação Jeje Savalu e existe desde 1979. A nação Jeje é uma das cinco vertentes do Candomblé, que são representações singulares do culto aos Deuses, com tradições, nomes e formas diferentes de manifestação. As outras nações são: Ketu, Nagô, Banto e Angola.

O termo Candomblé nasceu no Brasil após os africanos trazerem os cultos do seu país e os misturarem com as devoções indígenas do Brasil. Depois disso, nasceram os termos Babalorixá, que significa pai de santo, e Yalorixá, que significa mãe de santo, sacerdotes das religiões afro brasileiras que são preparados espiritualmente para orientar a vida de seus filhos de santo.

Em Santarém, o Candomblé é cultuado há aproximadamente 60 anos. Na porta de toda casa, há guardiões: os orixás Exu e o Ogum. O Pejigan Paulo Araújo iniciou na casa da mãe Sindoya em 2008, quando foi escolhido pelo Vodum, designação que pode ser tanto a religião, quanto a força espiritual dela.

Ele ressalta que ninguém escolhe pertencer a religião, mas as pessoas são escolhidas e chamadas para exercê-la. Por isto, não há convites dos representantes da casa para que as pessoas integrem a religião, pois eles querem pessoas que realmente nasceram para isto. Às vezes, uma pessoa pode ter vontade de praticar o Candomblé. De acordo com Paulo, há algo dentro da pessoa que está pedindo. Nestes casos, o búzio é jogado para que possa ser feita a iniciação da pessoa.

Conforme os princípios do Candomblé, só entende a religião verdadeiramente quem vive. Paulo explica que, pelo fato de as pessoas não entenderem a religião, é que surgem os preconceitos.

“Tudo que é desconhecido para a sociedade em geral acaba se tornando um preconceito. O Candomblé é uma religião como outra qualquer. Inclusive, as religiões de matrizes africanas são mais velhas que as outras religiões, puxando no contexto africano e mitologicamente”, explicou.

A função de Pejigan, de Paulo Araújo, é relativa ao sagrado, ao que é restrito, como o processo de iniciação de um filho da casa. Enquanto os médiuns entram em transe, o Pejigan está acordado, vendo tudo que acontece e é um cargo de muita confiança.

As divindades cultuadas pelos seguidores do Candomblé têm respectivas cores, comidas preferidas e características, que se refletem nos filhos de santo, pessoas com um compromisso com o orixá, vodun ou inkice e com as religiões afro.

Algumas pessoas fazem o sincretismo dos orixás com os santos da religião católica. O sincretismo surgiu da época em que os negros precisavam cultuar os orixás, inquíces, voduns, mas hoje em dia, os praticantes das religiões afro brasileira não costumam sincretizar suas divindades com os santos e anjos.

 

 

 

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