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Alsácia luta contra perda de autonomia

Por séculos região foi um pomo da discórdia entre Alemanha e França, da qual se tornou parte definitivamente há 100 anos. Recente fusão com duas regiões vizinhas ameaça particularidades culturais e sociais.

 
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Cem anos após a restituição da região da Alsácia à França, o presidente Emmanuel Macron foi pessoalmente a Estrasburgo. Contando com a presença de seu homólogo alemão, Frank-Walter Steinmeier, um concerto pela paz relembrou o fim da Primeira Guerra Mundial, em 11 de novembro de 1918, e a obra do século que foi a reconciliação franco-alemã.

Chamou a atenção o pequeno número dos alsacianos que foram saudar seu presidente na ocasião solene. Talvez tenha sido acaso, mas possivelmente é um indicador das atuais tensões entre os habitantes locais e o governo nacional, pois muitos alsacianos acusam os poderosos em Paris de, sobretudo após 2016, terem feito a Alsácia desaparecer como instituição política.

Na época, no quadro de uma grande reforma, o então presidente, François Hollande, fundiu a região com suas vizinhas Lorena e Champanha-Ardenas, criando a Grande Leste – território com o dobro do tamanho da Bélgica e rejeitado por 80% dos moradores da Alsácia, segundo pesquisas de opinião.

Frequentemente os alsacianos se sentem como brinquedos nas mãos da grande política. Na capital francesa, uma pesada placa de bronze no chão do Arco do Triunfo celebra a devolução da Alsácia à França, mas a impressão de muitos dos habitantes é que, para Paris, as particularidades regionais não contam muito. E elas são numerosas, devido a uma história turbulenta.

Durante séculos culturalmente próxima ao espaço germanófono, sob Luís 14 a região passou ao controle político francês. Entre 1850 e 1950, ela trocou quatro outras vezes de nacionalidade. Nessa eterna luta entre Alemanha e França, contudo, a Alsácia conseguiu manter várias regras próprias.

O recém-fundado Império Alemão adotou para a Alsácia-Lorena a legislação francesa da época. "Entre 1871 e 1918, então, as leis alemãs foram acrescentadas como uma 'camada' adicional", explica o professor de Direito Robert Hertzog, da Universidade de Estrasburgo. Após a próxima mudança de poder, por outro lado, os franceses deixaram uma parte da legislação alemã, em vigor até hoje.

Na Alsácia e partes da Lorena vale a antiga concordata de 1801: ao contrário do restante da França, em vez da estrita separação de Estado e Igreja, a administração alsaciana permite faculdades teológicas nas universidades públicas. Também nas leis de ensino e sociais há algumas particularidades.

Para que a legislação local não seja atropelada, mantém-se em Estrasburgo, há mais de 30 anos, o oficialmente reconhecido Institut du Droit Local, onde juristas mantêm sob observação o direito regional e também o defendem.

O bilinguismo igualmente tem significado central para a região. Ainda nas décadas de 60 e 70, havia alsacianos que não falavam francês, utilizando no dia a dia um subdialeto do alemânico. O Estado central se recusou a tolerar isso, e na França do pós-guerra as crianças que falassem alsaciano no pátio da escola eram até punidas fisicamente.

Hoje, cada vez menos dos 2 milhões de habitantes locais ainda falam dialeto, numa tendência a que o Departamento Linguístico Alsaciano procura se opor com cursos de idioma e campanhas informativas. Em mais de 500 grupos teatrais cultiva-se o alsaciano.

Grande parte dos alsacianos vê essa tradição e sua autonomia agora ameaçadas pela nova região. Seu temor é que projetos de incentivo controvertidos na Alsácia, como o fomento ao bilinguismo, possam vir a ser sacrificados na Grande Leste. Até porque as particularidades históricas da Alsácia são uma pedra no sapato dos adeptos estritos da "República única e indivisível".

Já há as primeiras indicações de que a voz alsaciana passará a ter menos peso: a importante conexão de trens de alta velocidade entre Estrasburgo e Marselha acaba de ser substituída por uma ligação entre Nancy, capital da Lorena, e a metrópole mediterrânea.

E como a grande região também é responsável por incentivos econômicos e turismo, os alsacianos temem que, no futuro, o fluxo de dinheiro passe cada vez mais ao largo deles nesses setores.

A metrópole regional Estrasburgo também se vê pressionada enquanto centro político: os tomadores de decisões políticas das três subregiões agora preferem se encontrar na área da Gare de l'Est de Paris, já que para eles é mais fácil chegar à capital nacional do que à da Grande Leste.

A frustração dos alsacianos se expressa igualmente nas urnas. Nas eleições legislativas de 2017, um candidato do partido regional Nossa Terra conseguiu pela primeira vez chegar ao segundo turno. Em Paris, a questão já foi entregue aos altos escalões: após longas negociações, recentemente o primeiro-ministro Édouard Philippe e representantes dos départments da Alta e Baixa Alsácia chegaram a um acordo de dez páginas definindo a "Região Europeia da Alsácia".

Certamente não seria um retorno à politicamente poderosa entidade territorial de outros tempos, mas, pelo menos em algumas questões, os alsacianos teriam a chance de tomar novamente nas mãos o próprio destino. A competência sobre a importante autoestrada A35 caberia à Região Europeia, capaz também de decidir autarquicamente contratar jovens professores da Alemanha, e com maior influência na economia e turismo.

Dentro de três anos, essa Região Europeia, dotada também de competência em questões transfronteiriças, poderá se tornar realidade. Irrita alguns críticos o fato de que nada mudaria na subordinação da Alsácia à região Grande Leste. De fato, essa solução acrescentaria mais uma variante à frequentemente criticada multiplicidade de competências políticas na França.

 

 

 

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