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Políticas públicas e afeto familiar combatem onda de violência disseminada pela internet

 

Uma semana após o ataque na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano (SP), escolas de Mato Grosso acionaram a polícia para investigar ameaças às unidades escolares, disseminadas por meio de grupos em aplicativo de celular. Na última quarta-feira (13) dois ex-alunos, encapuzados, mataram ao menos 10 pessoas e cometeram suicídio em seguida, dentro da instituição paulista. Foram apreendidos cadernos dos jovens, que trazia uma série de desenhos de armas, nomes de jogos de internet e táticas de jogos de combate.

 

Há apenas 23 anos (1996) ocorreu o ‘boom’ da internet no Brasil. De lá pra cá, as crianças e jovens têm sido expostas cada vez mais cedo ao uso das tecnologias. A televisão, salvo exceções, reunia a família na sala, enquanto o celular é de uso individual, dificultando o acesso aos pais ou responsáveis aos conteúdos acessados. A onda de violência passou a chamar a atenção no país em 2017, com um jogo de desafios que incentivava o suicídio, chamado Baleia Azul. 

 

Neste ano, outro jogo suicida tem deixado vítimas, o Momo. Ambos têm o mesmo modus operandi, pessoas desconhecidas se passam por um personagem e entram em contato com crianças pelo WhatsApp, dando instruções macabras para que passem de fase. Existe uma infinidade desse tipo de jogos na internet, e outros ainda piores na Deep Web, nome dado para uma zona da internet que não pode ser detectada facilmente pelos tradicionais motores de busca, garantindo privacidade e anonimato para os seus navegantes. É formada por um conjunto de sites, fóruns e comunidades que costumam debater temas de caráter ilegal e imoral. 

 

Para se ter uma ideia, um massacre foi transmitido ao vivo pelo Facebook na última sexta-feira (15). Um atirador matou 50 pessoas e feriu mais de 40 em duas mesquitas da Nova Zelândia, no pior massacre a tiros da história do país. A internet tem sido usada por grupos criminosos, que usam a rede mundial de computadores para recrutar pessoas, em especial crianças e jovens, para práticas de crimes brutais. 

MENOS INTERNET, MAIS VIDA E AFETO

 

A psicóloga Vera Capilé afirmou nesta segunda-feira (19) que o investimento em políticas públicas que envolvam o ensino de artes, do lúdico e da vivência deve ser priorizados no país. Assim como campanhas de prevenção e conscientização sobre o uso da internet nos lares. De acordo com ela, pelo fato de a internet ser ‘nova’ os pais estão tendo que acompanhar as mudanças rapidamente, sem que estejam preparados para os desafios do submundo da rede.

 

“A criançada tem muita facilidade de acesso à internet, que é uma porta. Por outro lado, muitas famílias preferem que os filhos fiquem na rede de computadores, do que vá pra rua e possa ter contato com drogas. Acham, inocentemente, que estão protegendo os filhos quando estão expondo mais ainda.” 

 

“Antes tinha festivais de músicas, teatro, o lúdico, mas as crianças hoje são solitárias, pegam um aparelho eletrônico e ali ficam o dia todo, sem convivência harmoniosa em família. Quais são os lugares que temos para levar os filhos? É shoppings. Precisamos de mais quadras de esportes, mais espaços públicos, praças, lugares onde a criança vá livremente e que seja gratuito. Tudo custa ‘uma nota’, por isso nós precisamos de políticas públicas para incentivar o convívio das famílias, dos colegas, e menos o uso de joguinhos e internet”. 

 

Além disso, ela pontua que os jovens aprendem a partir de exemplos, inclusive levando em consideração o comportamento dos políticos brasileiros. “Um jovem anda e age conforme exemplos. Não adianta só falar o que diz a lei, adianta você mostrar o que tem que ser feito. As autoridades políticas influenciam muito, porque se você olha a vida do prefeito, do deputado, do presidente da República, que exemplos estamos tendo? Eu vi fotos na internet do nosso presidente fazendo gestos de apontar armas, então o jovem pensa que está autorizando essa postura”. 

 

SINAIS DE ALERTA

 

Para o psicólogo Douglas Amorim, os pais estão tendo muita dificuldade para identificar sinais de alerta no comportamento dos filhos por conta do distanciamento dentro dos lares. A melhor forma de prevenção, de acordo com o profissional, é o afeto, o investimento em tempo de qualidade juntos. Ele observa ainda que é difícil observar apenas pela conduta da criança e do jovem, uma vez que algumas já têm atitudes mais restritivas, preferem ficar mais sozinhas em casa.

“Às vezes não há uma grande mudança de comportamento. O que os pais precisam ficar atentos é na forma como a criança ou jovem se relaciona em casa, eles precisam entender que a melhor forma de educação é o afeto, é o tempo de qualidade com esses filhos. Se os pais nunca sentam com os filhos pra conversar, se eles não desenvolvem um relacionamento de orientação, de amizade, eles não têm como controlar as ações de um adolescente. É o afeto, a presença, que faz esse jovem se abrir”. 

 

Avaliando a onda de violência disseminada em grupos, como as que vem ocorrendo em Mato Grosso, o psicólogo afirmou que os jovens atuais passam pelos mesmos problemas de antigamente. O que mudou é que, agora, existe a internet onde é possível disseminar e conquistar simpatizantes para as ideias que desencadeiam em suicídios e assassinatos, por exemplo. 

 

“Antigamente, quando sofríamos qualquer situação na escola, aquilo se dissolvia rapidamente, ficava entre os pais e alguma autoridade da escola. Hoje, alimentamos e retroalimentamos isso por conta da facilidade que a internet tem de reunir grupos. Se um aluno tem raiva de algo na escola, ele encontra apoio na internet onde eles acham que o melhor caminho seria uma vingança. Nesse momento, aquele pensamento passa a virar uma missão a ser cumprida”, alertou ele

ONDA DE VIOLÊNCIA 

 

Em Mato Grosso, ao menos quatro escolas foram alvos de ameaças. A Escola Estadual Jaime Veríssimo de Campos Júnior registrou um boletim de ocorrência após receber ameaça que a unidade escolar, localizada no bairro Jardim Imperial, em Várzea Grande, seria invadida por pessoas e que sofreria um ataque semelhante ao da cidade de Suzano (SP). 

 

Da mesma forma na Escola Estadual Historiador Rubens de Mendonça, na Cohab São Gonçalo em Cuiabá e na Escola Estadual União e Força, em Cáceres (225 km a oeste de Cuiabá), onde foi denunciada a existência de grupos criados no Estado com ameaças de ataques em escolas.

 

Caso semelhante ocorreu na cidade de Porto Esperidião (322 Km de Cuiabá). Um jovem de 18 anos, de uma escola na Vila Cardoso, comunidade rural teria feito um comentário sobre as mortes ocorridas em São Paulo. A Polícia Judiciária Civil emitiu nota oficial nesta segunda-feira (18) afirmando que todas as denúncias de atentados em escolas estão sendo checadas. 

A Gerência de Combate a Crimes de Alta Tecnologia instaurou procedimentos operacionais visando à identificação dos membros dos grupos. O trabalho conta com apoio da Gerência de Operações de Inteligência e Gerência de Inteligência, ambas da Diretoria de Inteligência, e também das delegacias dos locais. 

 

Em Cáceres (225 km ao Oeste), 14 estudantes de grupo de 18 integrantes foram ouvidos pela Polícia Civil, sobre mensagens compartilhadas em um grupo na rede social Telegram, de suposto atentado na Escola Estadual União e Força. O criador do grupo, um adolescente de 17 anos, disse estar arrependido e que não era intenção promover ataque à escola. Ele contou que o grupo durou apenas 1 hora e logo foi apagado. O jovem também alegou que viu outros grupos de escolas comentando sobre o atentado na escola Professor Raul Brasil, no município de Suzano, em São Paulo, e resolveu criar o grupo. 

 

Assim como os assassinos de Suzano, os envolvidos nos grupos em Mato Grosso também não têm histórico de infrações penais ou mesmo ocorrências no âmbito escolar.

 

 

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