Mundo

Mundo

Fechar
PUBLICIDADE

Mundo

Pandemia de Covid-19 redesenhou corrida presidencial nos EUA; entenda o cenário

Presidente dos EUA começou o ano como favorito à reeleição, mas avanço do novo coronavírus embaralhou as discussões sobre temas importantes para os norte-americanos. Cenário ainda não está definido.

 
 -   /
/ /

Donald Trump não esperava enfrentar uma pandemia em pleno ano eleitoral nos Estados Unidos. O novo coronavírus capaz de parar um país e matar dezenas de milhares de pessoas em poucos meses embaralhou o debate de temas das eleições presidenciais norte-americanas de 2020, marcadas para novembro.

Na primeira semana de fevereiro, Trump vivia um dos melhores momentos desde que assumiu a Casa Branca, em 2017. A absolvição no processo de impeachment, os bons números de emprego e a falta de coesão entre os opositores no Partido Democrata pavimentavam o caminho à reeleição do republicano.

O fluxo da política, porém, tomou outro rumo com a escalada dos casos de Covid-19 nos EUA, sobretudo depois de março, quando Nova York começou a fechar estabelecimentos e impor ordens de ficar em casa graças ao rápido aumento nos contágios e nas vítimas. Os empregos, antes uma carta na manga de Trump, despencaram em uma velocidade jamais vista por causa da epidemia.

Apoiador de Donald Trump usa máscara com a logo de campanha do presidente durante comício em Tulsa, nos EUA, em 20 de juho — Foto: Leah Millis/Reuters

E, enquanto o vírus começava a assustar os EUA, o antes fragmentado Partido Democrata cerrou fileiras em apoio ao ex-vice-presidente Joe Biden — justamente o nome que Trump queria investigar segundo o inquérito de impeachment que fracassou no Congresso.

Antes favorito, Trump agora vê uma corrida mais acirrada. Ainda faltam quatro meses até as eleições presidenciais norte-americanas, marcadas para 3 de novembro, e as peças da corrida eleitoral podem se mover mais uma vez. Afinal, no início deste mesmo 2020, o impacto da Covid-19 nos EUA ainda não parecia tomar as proporções de hoje.

Veja abaixo, em detalhe, como a pandemia do novo coronavírus reorganizou a corrida presidencial dos EUA.

Enfrentamento da pandemia

O presidente dos EUA, Donald Trump, segura uma máscara com o selo presidencial que disse ter usado durante visita à fábrica de componentes da Ford em Ypsilanti, Michigan, em 21 de maio — Foto: Reuters/Leah Millis

A postura de Donald Trump diante do novo coronavírus mudou desde os primeiros relatos da doença nos EUA, ainda em janeiro:

  • Efeitos do coronavírus — O presidente acreditava, no início, que os EUA estavam prontos para lidar com a Covid-19 e duvidava publicamente que ela geraria um grande número de vítimas. Meses depois, ele reconheceu que a doença deixaria dezenas de milhares de mortos no país.
  • Isolamento social — Inicialmente contrário a medidas mais rigorosas, Trump mudou de ideia, passou a defender que as pessoas permanecessem em casa e até discordou de governadores aliados que reabriam rapidamente o país. Depois, o presidente voltou a pedir o retorno das atividades, mesmo com os EUA atingindo mais de 2 milhões de casos oficiais.
  • Medicamentos — Trump defendia o uso da hidroxicloroquina nas primeiras semanas de pandemia, tema que gerou atritos com o médico Anthony Fauci, principal consultor da Casa Branca em epidemiologia. Com pesquisas que mostravam a pouca eficácia do medicamento nos casos de Covid-19 e com o aparecimento de outras substâncias mais promissoras, o presidente deixou de lado a defesa do remédio.

Essa postura errática do presidente dos EUA se traduz na oscilação do apoio a Trump, aponta o doutor em relações internacionais Carlos Gustavo Poggio, professor da Faap. "Houve no início até um aumento da aprovação, mas depois os eleitores começaram a perceber que ele lida de uma forma não satisfatória com a epidemia", avalia.

O professor pondera que, no entanto, o eleitorado ainda observa a reação da Casa Branca à pandemia, em um cenário que pode mudar.

"É a primeira grande crise que Trump tem que enfrentar no governo. O povo americano está julgando como ele lida com esse impacto", afirma Poggio.

Funcionários de restaurante separam mesas em Nova York após início de reabertura, em foto de 25 de junho — Foto: Lucas Jackson/Reuters

Por outro lado, medidas como o pagamento de auxílio — cheques inclusive impressos com o nome de Trump — e de parte dos tratamentos de pessoas doentes com o novo coronavírus evitaram que outro tema difícil para os norte-americanos entrasse em pauta: o sistema de saúde.

O assunto envolve discussões sobre pagamento compulsório de impostos e, assim, não é unanimidade sequer entre o Partido Democrata, analisa Juliano Cortinhas, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB).

"Os benefícios [aprovados por Trump] diminuíram a pressão sobre o sistema de saúde, e achei que essa pressão viria com muito mais força no debate. É uma falha dos democratas, que não chegam a um consenso sobre um plano financeiro e orçamentário para a saúde pública", afirma.

Coronavírus: um tema transversal

Homem usa máscara ao andar de metrô em Nova York, nos EUA, nesta quinta-feira (25) — Foto: Carlo Allegri/Reuters

A pandemia nos Estados Unidos ultrapassou a discussão sobre saúde ao afetar a economia norte-americana e as relações exteriores, dois assuntos chaves no debate eleitoral norte-americano. Veja exemplos abaixo.

  • Economia

Mulher passeia em loja de roupas marcada em Pasadena, na Califórnia (EUA), na quinta-feira (26) — Foto: Mario Anzuoni/Reuters

A área em que Trump obteve os melhores resultados nos três primeiros anos de governo terá prejuízos ainda não calculados por causa da pandemia. A taxa de desemprego, que estava na casa dos 3,5% em janeiro, chegou perto de 15% em abril. O mês seguinte veio com um alívio, com recuo para 13,3% da força de trabalho.

Entretanto, o real impacto econômico da Covid-19 vai demorar para ser dimensionado até porque a pandemia não acabou e ainda pode haver novos ciclos de fechamentos de atividades econômicas. Portanto, Trump e Biden ainda estudam como abordarão o tema nos meses finais da corrida eleitoral.

Para o professor Juliano Cortinhas, da UnB, economia sempre é um dos fatores mais importantes nas eleições. "Eleitores pêndulo tendem a prestar muita atenção no desempenho econômico. Tudo vai depender dos próximos meses", afirma.

Carlos Gustavo Poggio, da Faap, relembra que o eleitorado ainda avalia bem o desempenho econômico de Trump e que os indicadores ainda podem mudar muito.

"Se a gente pensar em meses atrás, o cenário era muito diferente. Faltam quatro meses para a eleição, e, em 2020, esse período é uma eternidade", comenta.

  • Política externa

Presidente chinês, Xi Jinping, vota em uma proposta para elaborar uma lei de segurança em Hong Kong durante a sessão de encerramento do Congresso Nacional do Povo, em Pequim, em 28 de maio. O parlamento da China aprovou o projeto da lei de segurança nacional a Hong Kong — Foto: Nicolas Asfouri / AFP

A reação inicialmente amistosa de Trump sobre o papel da China até surpreendeu no início da crise, ainda mais pela guerra comercial travada entre Washington e Pequim. Entretanto, com o coronavírus se tornando uma crise maior do que o imaginado, o presidente dos EUA subiu o tom repetidas vezes contra o governo de Xi Jinping — adotando até a nomenclatura "vírus chinês", que gerou críticas.

Além disso, Trump criticou a Organização Mundial da Saúde (OMS) pela maneira com a qual o órgão lidou com a pandemia e questionou os pagamentos feitos pelos EUA à entidade — a ponto de romper as relações com o organismo internacional.

O professor Juliano Cortinhas, da UnB, avalia que a postura de Trump na pandemia acelera a perda de liderança dos EUA no cenário internacional — movimento visto desde antes do novo coronavírus, com o distanciamento de acordos de meio ambiente, por exemplo.

"Na pandemia, a Casa Branca adotou políticas mais nacionalistas, como a exigência de produção de equipamentos de proteção individual para o mercado interno e até o desvio de rotas de produtos como respiradores", cita Cortinhas, relembrando episódios que geraram crises diplomáticas envolvendo os EUA.

  • Imigração

Aeroporto de Chicago esvaziado em 12 de março após anúncio de restrições de viagem entre EUA e Europa — Foto: Scott Olson/Getty Images/AFP

Os três primeiros anos de governo Trump se caracterizaram pelo endurecimento nas políticas migratórias, inclusive com pressão econômica ao México e a países da América Central para que contivessem as caravanas de migrantes. Houve também restrições de entrada de cidadãos de países de maioria islâmica com relações ruins com a Casa Branca, outro ponto de críticas entre opositores.

Desta vez, com a crise do novo coronavírus, o presidente-candidato adotou medidas para restringir a emissão de vistos de trabalho a estrangeiros — ou seja, uma forma de restrição também a migrantes legais — sob a justificativa de proteger empregos em risco por causa da pandemia. A essa medida, somam-se as restrições de viagens impostas a pessoas procedentes de países fortemente atingidos pela Covid-19, incluindo o Brasil.

"A pandemia deu a Trump a oportunidade de fazer o que sempre quis quanto a imigração. E ele sempre fica muito confortável ao tratar do tema em campanha", analisa Poggio.

Biden em isolamento

Joe Biden em evento público em 25 de maio de 2020 — Foto: Carlos Barria/Reuters

Uma crise do tamanho da pandemia de Covid-19 coloca Trump naturalmente em evidência por causa do cargo. Além dessa predominância do presidente no noticiário, o isolamento para conter o novo coronavírus leva a campanha para fora dos comícios — embora o republicano tenha organizado mega eventos de campanha.

Mesmo assim, Biden pode se beneficiar desse isolamento, avalia Carlos Gustavo Poggio. "A pandemia deixou o democrata jogar na defensiva, fica parado. Assim, ele se expõe o mínimo possível — e é bom para os democratas, porque ele comete muita gafe", justifica.

Biden é conhecido por dar declarações fora do tom desde que era candidato a vice na chapa de Barack Obama em 2008, quando se elegeu. Recentemente, ele voltou a atrair críticas por ter afirmado que o afro-americano que considerar votar em Trump "não é negro". O democrata pediu desculpas pela fala.

"A estratégia do Partido Democrata é fazer da eleição um referendo sobre Trump. Então, foca-se menos em Biden, colocado como candidato genérico, para incentivar voto contra Trump", analisa Poggio.

Quem vai vencer as eleições nos EUA?

Donald Trump e Joe Biden disputam eleições nos EUA — Foto: Saul Loeb, Ronda Churchill/AFP

Embora a pesquisa do jornal "The New York Times" que mostrou Biden 14 pontos à frente de Trump tenha deixado eleitores democratas eufóricos, os professores ouvidos pelo G1 ressaltam que o cenário continua indefinido. Principalmente, por duas razões:

  1. Colégio Eleitoral — Em 2016, Hillary venceu Trump na votação popular. Entretanto, bastou que o republicano vencesse com margem pequena em estados considerados chave — principalmente os que sofriam com fuga de empregos na década passada — para que conquistasse mais delegados para a votação no Colégio Eleitoral, que realmente importa. O cenário pode se repetir em 2020.
  2. Tempo — Pesquisas retratam o momento, e a aprovação ou rejeição aos candidatos podem aumentar ou diminuir bruscamente no decorrer dos próximos meses.

Velório de George Floyd em Minneapolis, nos Estados Unidos — Foto: REUTERS/Lucas Jackson

Um desses novos fatos que apareceram mesmo durante a pandemia foi a morte do ex-segurança George Floyd em uma ação policial, que gerou uma série de protestos contra o racismo nos EUA entre maio e junho.

De um lado, Biden se aproximou da família de Floyd, enviou vídeo ao funeral do ex-segurança e demonstrou aos protestos. Porém, o democrata evitou apoiar o fim do financiamento federal às polícias, uma das pautas dos manifestantes.

Do outro lado, Trump lamentou publicamente a morte de Floyd, mas se viu alvo dos protestos. Ele, então, focou na resposta aos atos de violência vistos em algumas cidades após as manifestações pacíficas, ameaçando chamar o Exército e evocando o slogan de "lei e ordem".

Nuvens de chuva se aproximam de Casa Branca, em Washington (EUA), nesta quinta-feira (25) — Foto: Alex Brandon/AP Photo

Falta saber qual será o impacto dos protestos e da pandemia nas eleições norte-americanas. Nos próximos meses, ainda deve haver discussão sobre a votação por correio, que tem sido criticada por Trump por supostamente favorecer Biden. Para os professores ouvidos pelo G1, é cedo para apontar um resultado.

"Trump estava atrás de Hillary em junho de 2016", relembra Juliano Cortinhas, da UnB. "Mas o republicano era a novidade daquele ano. A retomada para ele vai ser mais difícil", avalia.

Na mesma linha, Carlos Gustavo Poggio concorda que o cenário se tornou mais difícil para Trump, mas aponta que as condições para o atual presidente se reeleger podem ser mais favoráveis do que há quatro anos.

"Não há nada garantido. Trump é um ator político muto perspicaz, tem base e agora uma campanha organizada — diferentemente de 2016. E é o atual presidente. Não dá para descartar", pondera Poggio.

Biden tem 14 pontos de vantagem em pesquisa de opinião

Biden tem 14 pontos de vantagem em pesquisa de opinião

ELEIÇÕES NOS EUA

  • Calendário eleitoral

  • Diferença entre caucus e primária

  • Como funciona a eleição

  • Biden x Sanders

 

 

PUBLICIDADE

Curiosidades

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE