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Explosão em Beirute: o que se sabe e o que falta saber

Incidente ocorrido na terça-feira 4 em depósito de nitrato de amônio na área portuária da capital do Líbano deixou mais de 100 mortos e 4 mil feridos, segundo o governo local. Não há informação sobre a causa.

 
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Uma grande explosão em um armazém na região do porto de Beirute, capital do Líbano, deixou mais de 100 mortos e cerca de 4 mil feridos, segundo o governo local. Até a última atualização desta reportagem, ainda era desconhecida a causa do incidente, que ocorreu em um depósito de nitrato de amônio – não se sabe, por exemplo, se ocorreu um acidente ou um atentato terrorista.

A suspeita é que a explosão tenha atingido um galpão que guardava grandes quantidades de nitrato de amônio, composto geralmente usado como fertilizante. Cerca de 2.750 toneladas desse material estavam estocadas havia seis anos, de acordo com o primeiro-ministro Hassan Diab.

Imagem feita por drone mostra a local da explosão no porto de Beirute, no Líbano, nesta quarta-feira (5) — Foto: Hussein Malla/AP

  • FOTOS: a explosão em Beirute
  • VÍDEOS: o incidente em vários ângulo

Veja, abaixo, o que se sabe e o que falta esclarecer:

  1. Qual é o número de mortos e feridos?
  2. O que causou a explosão?
  3. Onde aconteceu a explosão?
  4. O que é nitrato de amônio?
  5. Como foi a explosão?
  6. Qual a avaliação de especialistas sobre a explosão?
  7. O que relataram brasileiros no Líbano?
  8. Por que o Líbano vive período de instabilidade política?
  9. Por que o Líbano enfrenta grave crise econômica?

Explosão no Líbano — Foto: Arte-G1

1. Qual é o número de mortos ou feridos?

Homem ferido é examinado por um bombeiro perto do local de uma explosão em Beirute — Foto: Anwar Amro/AFP

O governo libanês contabiliza ao menos 100 mortos após a explosão. Em entrevista a uma rede de TV, o ministro da Saúde do Líbano, Hamad Hasan, disse que há cerca de 4 mil feridos.

Há operações de resgate nesta quarta-feira (5). Ainda há dúzias de pessoas desaparecidas. Moram mais de 750 mil pessoas na região que foi afetada pela explosão.

O presidente do país, Michel Aoun, defendeu que a capital deve declarar estado de emergência para as próximas duas semanas e disse ser "inaceitável" que 2.750 toneladas de nitrato de amônio fossem armazenadas por seis anos em um depósito sem a segurança necessária.

O primeiro-ministro libanês, Hassan Diab, disse em pronunciamento que o país enfrenta uma catástrofe e declarou luto oficial de um dia. "Eu prometo que esta catástrofe não passará sem que os culpados sejam responsabilizados. Os responsáveis pagarão o preço", afirmou Hassan Diab.

Mais cedo, a Cruz Vermelha já havia citado mais de 2 mil feridos. Parte foi levada a hospitais, mas, até a última atualização desta reportagem, havia muita gente presa em escombros dentro de suas casas. Pessoas em barcos também foram jogadas ao mar.

Um fotógrafo da agência Associated Press perto do porto de Beirute viu feridos no chão e uma destruição generalizada no local.

A rede libanesa de transmissão LBCI informou que no hospital Hotel Dieu havia mais de 500 pessoas sendo atendidas. Foi feito um pedido de doações de sangue.

Imagens mostram coluna de fumaça após explosão no Líbano

Imagens mostram coluna de fumaça após explosão no Líbano

2. O que causou a explosão?

Grande explosão atingiu capital libanesa, Beirute, nesta terça-feira (4), disse correspondente da AFP. A explosão, que abalou edifícios inteiros e quebrou vidros, foi sentida em várias partes da cidade. — Foto: Anwar Amro/AFP

Ainda não há informação sobre a causa da explosão.

Houve uma primeira forte explosão na região portuária de Beirute por volta das 18h (12h de Brasília) de terça-feira, seguida por um incêndio e algumas detonações. Veio, então, uma segunda explosão, que causou uma enorme nuvem de fumaça em forma de cogumelo e que arrasou o porto e os edifícios vizinhos.

Apesar de o país já ter passado por uma guerra civil, ter sido alvo de terroristas e viver período de instabilidade política (leia mais abaixo), não há evidência de que o evento desta terça tenha sido decorrência de um atentado terrorista. Também não se sabe se ocorreu um acidente.

Em entrevista a uma emissora de TV, o chefe de segurança interna do Líbano, Abbas Ibrahim, não quis especular sobre a causa da explosão.

Homem ferido em explosão na zona portuária de Beirute, no Líbano — Foto: Hussein Malla/AP

Fumaça sobe após explosão em Beirute, no Líbano — Foto: Mohamed Azakir/Reuters

3. Onde ocorreu a explosão?

Mapa identifica a região portuária de Beirute, onde aconteceu uma grande explosão nesta terça-feira (4) — Foto: G1

O chefe de segurança interna do Líbano, Abbas Ibrahim, disse que a explosão, na região portuária do Líbano, aconteceu numa seção que armazena materiais que podem ser altamente explosivos – o nitrato de amônio –, e não explosivos em si.

A explosão no armazém do porto causou destruição em larga escala e quebrou o vidro de janelas a quilômetros de distância. Alguns barcos que navegavam próximos à costa do Líbano chegaram a ser balançados pela força da explosão.

As explosões chegaram a ser ouvidas em Larnaca, no Chipre, a pouco mais de 200 km da costa libanesa.

Uma embarcação da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL) foi danificada após a explosão no porto. Em um comunicado, os capacetes azuis informaram que alguns membros da missão de paz se feriram e foram transferidos para hospitais do país.

  • LEIA MAIS: veja a região portuária antes da explosão

Veja como era a região portuária de Beirute antes da explosão

Veja como era a região portuária de Beirute antes da explosão

4. O que é nitrato de amônio?

O nitrato de amônio é um fertilizante amplamente usado na agricultura – e já esteve ligado a outras explosões no passado.

Em 1947, no estado norte-americano do Texas, houve um acidente com um navio que transportava cerca de 2.000 toneladas do produto químico. Na ocasião, 581 pessoas morreram.

Em 1995, um terrorista usou duas toneladas de nitrato de amônio para bombardear um prédio do governo dos EUA na cidade de Oklahoma, matando 168 pessoas.

O composto, por si só, é relativamente pouco explosivo – mas tem grande potencial explosivo. Ele se apresenta como um pó branco ou em grânulos solúveis em água e é seguro, desde que não aquecido. A partir de 210 °C, decompõe-se. E, se a temperatura aumentar para além de 290 °C, isso pode causar uma reação que pode tornar-se explosiva.

Um incêndio, tubos superaquecidos, fiação defeituosa ou relâmpagos podem ser suficientes para desencadear tal reação em cadeia. Mas, para que uma explosão ocorra, deve haver também uma quantidade significativa de nitrato de amônio, segundo especialistas.

Fundamental para a produção de alimentos, o nitrato de amônio precisa ser armazenado com restrições, de acordo com Guilherme Marson, professor doutor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP) e da Sociedade Brasileira de Química (SBQ).

“Não se armazena [nitrato de amônio] em grande escala com segurança. É necessário dividir o produto em pequenas porções para conter um possível estrago. E, principalmente, produzir e já transportar para onde será utilizado", disse o pesquisador ao G1.

A fórmula química do nitrato de amônio – NH4NO3 – pode também ser usada na fabricação de explosivos e bombas, como no caso no atentado em Oklahoma, em 1995, e no ataque em Oslo, em 2011.

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5. Como foi a explosão?

Imagens divulgadas nas redes sociais mostram uma nuvem de fumaça em um galpão próximo ao porto, sendo sucedida de pequenos estopins e "pipocos", com flashes de luzes e estrondos localizados.

Em seguida, houve uma grande detonação, com a formação de um cogumelo gigante de calor que provocou a destruição de imóveis próximos ao local.

Os vídeos mostram um efeito varredura, com uma devastação ao longo da área atingida pela explosão e destruição de imóveis em larga escala e por quilômetros de distância. Pessoas foram jogadas ao mar e carros virados de ponta cabeça.

6. Qual a avaliação de especialistas sobre a explosão?

O tamanho e a poderosa onda de choque que a megaexplosão lançou por quilômetros chamou a atenção de especialistas ouvidos pelo G1.

Militares especialistas em explosivos e produtos químicos, além de historiadores que acompanham a situação no Oriente Médio, avaliaram que, se a explosão tivesse sido deflagrada por produtos químicos, haveria imediatamente um processo de retirada dos moradores da área, devido ao risco de contaminação e outras complicações.

Segundo um instrutor em armamento da Polícia Militar de São Paulo que já realizou treinamentos internacionais em explosivos, nem a detonação de uma tonelada de dinamite provocaria efeito semelhante ao visto no Líbano.

  • Especialistas avaliam explosão em Beirute: 'onda de choque e calor é nítida'

Ao ver as imagens da detonação, o major Marcos Palumbo, porta-voz do Corpo de Bombeiros de São Paulo, assinalou que apenas um fator externo provocaria uma detonação instantânea de todo o local, como mostra o vídeo, causando uma grande onda de choque.

"A enorme onda de choque e de calor causada pela explosão em toda a área, de forma instantânea em toda a extensão do terreno, é algo nítido ao ver as imagens. Foi algo muito forte que tinha ali ou em enorme quantidade. É como se tivesse sido deflagrado por algo externo, como uma bomba, em um local com grande quantidade de explosivos. Se fosse um incêndio, que começa onde há contato com o oxigênio, ele não seria de forma repentina como o visto", avalia Palumbo.

7. O que relataram brasileiros no Líbano?

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Brasileiros que moram no Líbano contaram o que sentiram no momento da explosão. Rosaly Bouassi disse em entrevista à GloboNews que pensou estar no meio de um terremoto e que o impacto da explosão balançou o prédio e quebrou o vidro das janelas.

"O meu bairro não é tão perto, mas sentimos aqui como se fosse um terremoto. O prédio balançou, os vidros quebraram, as cadeiras da sala de jantar ficaram cada uma para um lado. Foi muito forte, terrível."

Mesmo morando na região do centro da cidade, não muito próxima do porto, a força do impacto fez Rosaly pensar que tivesse acontecido na rua de sua casa. "Tudo em volta começou a quebrar, tudo caia. Não foi muito rápido, durou um pouco. Foi assustador", disse.

Ela também ressaltou a solidariedade das pessoas durante um momento difícil que o país atravessa, com instabilidade política, crise econômica e insatisfação com o governo.

"Cada um está tentando ajudar aos outros. Os danos são terríveis, tudo muito lamentável e muito triste. As pessoas esqueceram da Covid neste momento".

Gilmara Souza estava trabalhando em casa quando sentiu um tremor muito forte. Ao verificar se a filha estava bem, aconteceu a primeira explosão. "A rua toda estava com os vidros quebrados, estilhaços por toda rua. Foram duas explosões, uma seguida da outra", disse.

"Senti um medo muito grande, senti que a guerra recomeçou aqui."

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8. Por que o Líbano vive instabilidade política?

O Líbano vive um período de instabilidade política. No fim do ano passado, o primeiro-ministro Saad Al-Hariri renunciou. O país viveu um período com um vácuo de poder, até que Hassan Diab assumiu e anunciou a formação de um novo governo em janeiro. O gabinete foi anunciado em meio a uma série de protestos.

Nesta sexta-feira (7), um tribunal apoiado pela ONU deve divulgar seu veredito no julgamento contra quatro homens acusados de terem participado do assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafic Hariri em 2005, uma etapa fundamental em um longo processo no qual os suspeitos continuam em liberdade.

Os réus, todos membros do movimento xiita do Hezbollah, estão sendo julgados à revelia pelo Tribunal Especial do Líbano (TSL), com sede em Haia, encarregado de ditar a sentença 15 anos após o atentado com um carro-bomba no centro de Beirute. Nele, morreram o bilionário sunita e outras 21 pessoas.

O assassinato de Hariri, pelo qual quatro generais libaneses foram inicialmente acusados, desencadeou uma onda de protestos que forçou a retirada das tropas sírias do país, após uma presença de 30 anos no país.

Em março deste ano, o país deu um calote em seus credores. O Líbano deveria reembolsar US$ 1,2 bilhão em títulos do Tesouro, dos quais uma parte significativa está nas mãos dos bancos e do Banco Central, e decidiu não fazer isso.

9. Por que o Líbano enfrenta grave crise econômica?

Em análise publicada nesta terça em seu blog no G1, Sandra Cohen explica que o Líbano está imerso numa catástrofe econômica – a mais severa desde o fim da guerra civil que arrasou o país de 1975 a 1990.

  • SANDRA COHEN: a crise econômica no Líbano

A situação é resultado da convergência de má administração, corrupção e instabilidade política. O cenário causou fome e desespero – cenas até então raras num país que, até a década passada, era considerado um oásis de prosperidade no Oriente Médio.

A devastação, que analistas comparam à hiperinflação e ao desabastecimento registrados na Venezuela, faz com que o número de suicídios, relacionados à crise econômica, venha aumentando e causando comoção no país.

Nesse contexto de recessão econômica desde 2019, a pandemia do novo coronavírus apenas mascarou o caos. O Líbano registrou 5 mil casos e 62 mortes. Com o fim da quarentena, novos protestos voltaram a refletir o país em frangalhos, com cortes salariais e demissões.

No ano passado, a onda de descontentamento levou à demissão do primeiro-ministro Saad Hariri. A gota d’água para o fim do governo de unidade foi a proposta de novos impostos sobre cigarro, gasolina e de chamadas de voz pelo WhatsApp. O governo foi obrigado a recuar.

MEGAEXPLOSÃO EM BEIRUTE

  • Grande explosão atinge área portuária de Beirute; governo cita 'alto número de feridos'

  • VÍDEOS da explosão em Beirute, no Líbano

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